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Catequese e internet – Dificuldade positiva, realidade definitiva

Altierez dos Santos

Autor:

Quando se fala da missão de ser catequista na atualidade, é comum nos lembrarmos dos desafios que esta missão traz. E aqui quero lembrar que nos sentirmos desafiados não é ruim, pelo contrário: é sentir que estamos vivos e que podemos dar passos ainda maiores. Exemplos de desafios que temos como catequistas:

 

– maior e melhor conhecimento bíblico;

 

– compreensão da História da Salvação e História da Igreja;

 

– domínio da didática e metodologia adequadas;

 

– noções de psicopedagogia catequética;

 

– entendimento sobre a teologia da Igreja;

 

– concepção sobre fé, vida e comunidade.

 

 

Entre os vários desafios que a Catequese enfrenta hoje, podemos colecionar mais um: a evangelização no “continente digital”. Por isso quero destacar três pontos para nós catequistas pensarmos nossa missão para os próximos anos.

 

 

 

Onde estamos

 

Costuma-se dizer que não sabemos evangelizar nas redes sociais e nas mídias digitais. Isso pode ser verdade, mas é bom lembrar que a sociedade em si também não faz bom uso destes recursos. Então, tecnicamente, estamos empatados, correto? Não. Ocorre que nós precisamos estar à frente desse processo e não no mesmo nível de compreensão que a sociedade. É preciso pensar à frente e ter audácia, criatividade e persistência.

 

Por conta da pandemia de COVID-19 a maioria das Dioceses reagiu positivamente permitindo ou incentivando catequistas a se apresentarem nos meios digitais. Foi uma prova de fogo para a grande maioria. Recordo-me de que fui pego de surpresa e não conhecia as ferramentas digitais para atingir os catequizandos. Esse choque inicial fez com que muitas(os) catequistas se afastassem da missão por vários motivos. Quem ficou foi “jogado na piscina” e precisou aprender a nadar.

 

Atualmente ainda estamos elaborando nossa atuação em situações como:

– buscando novas formas de se colocar diante das câmeras;

 

– procurando ter uma comunicação mais clara nas mensagens;

 

– repensando nossa forma de apresentar os temas à distância;

 

– e principalmente: aprendendo a usar melhor as ferramentas digitais.

 

 

 

Como estamos como Igreja

 

A adesão à catequese digital não foi uniforme, pois algumas Dioceses passaram os dois anos mais duros da pandemia sem permitir que suas e seus catequistas evangelizassem por cima dos telhados (cf. Mt 10,27). O argumento era de que “não existe catequese digital”, mas não é bem assim. Desde quando as tecnologias da comunicação surgiram, recebemos catequeses à distância. Desde o surgimento do telégrafo, do rádio, da televisão e da própria internet, recebemos a catequese dos Papas, por exemplo.

 

12 de fevereiro de 1931 o Papa Pio XI inaugurava a Rádio Vaticana com uma catequese escrita de próprio punho e destinada a toda a criação. Um destaque foi a presença do próprio inventor do rádio, Guglielmo Marconi, que criou pessoalmente a Rádio do Papa. Aquela transmissão chegou com clareza a diversos lugares do mundo. O Papa Francisco recordou que

 

 

“setenta anos atrás, precisamente na Páscoa de 1949, um Papa falava pela primeira vez na televisão. O Venerável Pio XII se dirigia aos telespectadores da TV francesa, enfatizando como os olhos do Sucessor de Pedro e dos fiéis, também poderiam encontrar-se através de um novo meio de comunicação”[1].

 

Os exemplos seriam muitos, mas o essencial é que não importa se a mensagem do Evangelho está escrita em um pergaminho, em um tablete ou mesmo na película de um filme, ela sempre será uma luz.

 

 

 

Como estamos como sociedade

 

A Pesquisa Digital Brazil 2019 (DataReportal) detalhou um Panorama das redes sociais digitais no Brasil e mostrou um raio-x de nossa sociedade. As informações recolhidas são claras a respeito de como nossa sociedade, e portanto nós, estamos. Os dados foram sintetizados por Moisés Sbardelotto:

 

 

População total: 211,8 milhões

  • Linhas de celular: 205,8 milhões (97%)
  • Usuários de internet (16 a 64 anos): 150,4 milhões (71%)
  • Usuários ativos em redes sociais: 140 milhões (66%)
  • Número médio de contas em redes sociais digitais por pessoa: 9,4

 

Redes sociais digitais mais utilizadas:

  1. YouTube 96%
  2. Facebook 90%
  3. WhatsApp 88%
  4. Instagram 79%

 

Tempo de uso diário:

  • Internet: 9h17min
  • Mídias sociais: 3h31min

 

Atividades online (16 a 64 anos):

  • Assistir vídeo: 98%
  • Ouvir música: 70%

 

70% no mundo disseram que passaram mais tempo no celular durante a pandemia; 53% assistindo vídeos; 43% em redes sociais.

 

O que os números nos dizem

 

Os números da pesquisa mostram um cenário otimista: as pessoas passam grande parte do tempo nas mídias digitais e se comunicam pelas redes sociais. É claro que há um imenso número de pessoas que não tem acesso à internet de qualidade ou que inclusive não tenham acesso algum, mas isso não justifica o abandono daqueles que estão no mundo digital. A Igreja precisa ir onde as pessoas estão e não pode se retrair.

 

 

Onde queremos chegar

 

 

Temos duas metas na evangelização da Internet. A primeira delas é que sejamos capazes de comunicar com criatividade e ousadia a mensagem de Cristo aos nossos catequizandos e suas famílias. A segunda meta é que possamos, como Igreja, alcançar a sociedade toda no continente digital.

 

O documento do Sínodo dos Jovens de 2018 foi claro:

 

 

“O ambiente digital constitui, para a Igreja, um desafio a vários níveis, sendo imprescindível aprofundar o conhecimento das suas dinâmicas e o seu alcance dos pontos de vista antropológico e ético. O ambiente em questão requer não só que o frequentemos e promovamos as suas potencialidades de comunicação em ordem ao anúncio cristão, mas também que impregnemos de Evangelho as suas culturas e dinâmicas”.(Sínodo dos Jovens, 145)[2].

 

E para finalizar, na clássica mensagem do Papa São João Paulo II sobre o Dia Mundial das Comunicações no dia 12 de maio de 2002, ele escreveu que:

 

 

“A Igreja aproxima-se deste novo meio com realismo e confiança. Como os outros instrumentos de comunicação, ele é um meio e não um fim em si mesmo. A Internet pode oferecer magníficas oportunidades de evangelização, se for usada com competência e uma clara consciência das suas forças e debilidades. Sobretudo, oferecendo informações e suscitando o interesse, ela torna possível um encontro inicial com a mensagem cristã, de maneira especial entre os jovens que, cada vez mais, consideram o espaço cibernético como uma janela para o mundo. Portanto, é importante que a comunidade cristã descubra formas muito especiais de ajudar aqueles que, pela primeira vez, entram em contato com a Internet, a passar do mundo virtual do espaço cibernético para o mundo real da comunidade cristã.”[3]

 

 

Ponto sem retorno

 

A internet representa hoje um limite para a catequese. É um território ainda não alcançado por nós catequistas.

 

 

Catequese digital não substitui a presencial, mas será uma realidade permanente de agora em diante, já que a nossa presença é necessária no mundo da internet. Se não formos nós, quem vai falar em nosso lugar? A Igreja precisa ser Igreja em saída também no universo digital. Não podemos simplesmente deixar passar essa oportunidade de aprender e de levar Jesus. Quanto mais tempo levarmos para entender isso, mais atrasados ficaremos e pagaremos um preço muito alto no futuro. A internet e tudo o que ela trouxe são realidades definitivas.

Fonte:

Portal Altierez

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