
Grandes transformações não acontecem de repente e nem por acaso. Vão acontecendo lentamente, fora dos nossos radares, um pouco por dia, ao longo de anos, décadas, séculos. Até que se tornam visíveis.
Quando olhamos para os números do Censo, nos espantamos com a aparente diminuição do número de católicos em vários países. O caso do Brasil foi o mais dramático: mais de 30% da população deixou a Igreja Católica e fez um caminho que passava pelos grupos religiosos pentecostais e depois de se decepcionarem com eles, entravam no grupo dos “sem religião”.
Foram muitas as tentativas de entender o que estava acontecendo e uma das respostas foi que a formação religiosa dos católicos adultos não havia sido sólida durante o tempo em que estiveram na catequese católica. Era e ainda é muito comum um líder pentecostal (pastor, obreiro, “missionário” etc) gravar um conjunto de questionamentos sobre a fé católica e jogar sobre católicos desavisados, que não conseguem responder e passam a ter sua fé em dúvida. Na cena seguinte, esses mesmos pentecostais convidam aquela pessoa para um culto mágico no qual aparecem personagens como “encosto”, “pomba-gira”, o próprio diabo e são feitas “revelações” sobre o fato de a vida do visitante ser tão prejudicada por ele ser idólatra…
De forma resumida, foi isso o que aconteceu no Brasil nas últimas décadas. Pessoas vivendo em situações de exclusão, com pouca ou nenhuma formação (inclusive religiosa) e literalmente esperando algum milagre no horizonte. Por outro lado, os grupos religiosos pentecostais (não confundir com as comunidades protestantes clássicas) atuavam mediante estratégias de marketing agressivo, teatro de supostas curas e inclusive notícias falsas. Perdi a conta de quantos “testemunhos” ouvi em fitas cassetes de supostas “conversões” de Bispos, sacerdotes, religiosas e leigos católicos, que teriam deixado a “heresia” e “aceitado Jesus”. E há, como se sabe, um terceiro lado nesta moeda: a ausência de formação religiosa sólida, inclusive de padres, freiras e catequistas.
O quadro evoluiu e nas últimas décadas passou-se a falar muito em “catecumenato”, “iniciação à vida cristã” e “inspiração catecumenal”. Termos que eram estranhos a qualquer um de nós há vinte anos. Mas que na verdade já eram antigos pedidos da Igreja para que a Catequese se repensasse. O decreto Ad Gentes, de 1965, do Sagrado Concílio Vaticano II, resgatou o catecumenato e deu orientações básicas sobre ele. O Ritual para a Iniciação Cristã de Adultos (RICA), de 1972, atualizou o catecumenato de adultos colocou as orientações gerais sobre a estrutura desta forma de catequese antiga e nova.
Não falarei aqui sobre como a catequese catecumenal se organiza, mas vou direto a um ponto estratégico: o catecumenato poderá, por si só, salvar a catequese e fazer com que aconteça uma evangelização completa? Atenção a este ponto. Por si só ele não poderá mudar a situação. Por exemplo, uma diocese que resolva adotar esse estilo de catequese e não prepare suas e seus catequistas, não colherá frutos. Uma catequista que aplicar em sua missão a inspiração catecumenal, mas continuar utilizando metodologias e estratégias de “sala de aula” também não conseguirá sucesso.
Na antiga catequese, o(a) catequista é um(a) professor(a). Na nova, é pai, mãe, mestres da vida espiritual.
Na antiga catequese, a comunidade é apenas um lugar. Na nova, é onde elas encontram o sentido da vida.
Na antiga catequese, os sacramentos são coisas sem importância. Na nova, eles são marcas do amor de Deus.
O catecumenato ou a catequese de inspiração catecumenal só poderão dar seus frutos se houver uma mudança na nossa atual cultura catequética. Usamos hoje recursos, métodos e didática de 1970. Não conseguem responder aos desafios de hoje. E se houver alguma mudança, repito, ela vai acontecer lentamente, ao longo dos anos, décadas, séculos. Não será de uma hora para outra. A maioria das dioceses ainda não conseguiu de fato implantar a cultura catecumenal e fazer com que ela produza frutos. Esta árvore ainda precisará ser muito cultivada antes de dar suas primeiras flores, que possivelmente não veremos. Mas sou otimista com o catecumenato e sei que só por mexer com nossa mentalidade antiga, ele já está fazendo um grande milagre! Imagine daqui a algumas décadas quantas boas surpresas teremos!
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3 Comentários.
Sensacional, o curso.
Gosto muito dos ensinamentos do prof. Altieres é uma benção te-lo tão dedicado a nos dar cursos grátis, Deus o abençoe hoje e sempre.
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