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O diretório para a catequese: guia e mapa para nosso tempo

Altierez dos Santos

Autor:

NÃO CAMINHAMOS SÓS

Nestes últimos anos, durante a quarentena, vivemos situações muito difíceis em nossas vidas, com perdas humanas, alteração profunda de nossas vidas, estagnação econômica entre outras dificuldades. E no meio a tudo isso, Deus nos permitiu a bênção de boas coisas também. Uma delas foi o Diretório para a Catequese, dado à Igreja no dia 23 de março de 2020.

Trata-se de um “regimento” para a catequese para o mundo todo, valorizando a unidade na diversidade. Ele foi escrito pelo Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, que cuida da catequese a nível mundial e teve a colaboração de pessoas do mundo todo, foi direcionado para os Bispos (para que zelem de sua aplicação) e para cada catequista e pessoa madura na fé (para que se baseiem nele ao evangelizar.) Surgiu 23 anos após o Diretório anterior e 49 anos após o primeiro. “Na era digital, vinte anos podem ser comparados, sem exageros, a pelo menos meio século”, disse na ocasião Dom Rino Fisichella.

O primeiro foi o Diretório Catequético Geral, de 1971. O segundo foi o Diretório Geral para a Catequese, de 1997. Este terceiro Diretório já era uma notícia esperada porque começou a ser escrito há vários anos, em 2014.

Ele possui três princípios: “testemunho, misericórdia e diálogo”. Testemunho, porque “a Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração”; misericórdia, “por meio da qual a verdadeira catequese torna crível a proclamação da fé”; diálogo, “livre e gratuito, que não obriga, mas, partindo do amor, contribui para a construção da paz”. Assim, – explica o Diretório – “a catequese ajuda os cristãos a dar pleno sentido à sua existência”. O Diretório mostra que não caminhamos sós, mas com a atenção completa da Igreja.

 

OS DESAFIOS DO NOSSO TEMPO

Ele se dirige à cultura do nosso tempo. E coloca a Igreja indo ao encontro das pessoas do nosso tempo. Possui três partes, doze capítulos e 428 artigos. Sabe quantas partes, capítulos e artigos falam de formação? Todos.

Ele tenta responder às perguntas:

Por que as sociedades perdem a fé?

Por que as pessoas deixam a Igreja Católica?

Por que a catequese ou a comunidade não conseguem evangelizar?

Onde elas falharam?

Algum dia conseguiremos mudar o que está acontecendo na evangelização?

 

Algumas pistas que ele oferece para pensarmos:

Multiplicação das ofertas religiosas;

Simplificação do sagrado;

Engessamento das comunidades;

 

AS LINHAS GERAIS

O Diretório nos chama para uma nova consciência eclesial sobre a catequese. Ele aponta novas possibilidades para a evangelização e também mostra o potencial que a catequese possui para evangelizar. Ao ler o Diretório, percebemos as grandes linhas gerais com as quais ele traça o mapa da nova evangelização:

 

  1. Testemunho = cultura de estudos
  2. Diálogo = comunhão
  3. Misericórdia = acolhimento
  4. Dialoga com a cultura do tempo presente;
  5. Com a cultura que não é mais geográfica, mas digital;
  6. Valoriza a mistagogia;
  7. Pede que se deixe a “catequese escolar”;
  8. Alerta para uma cultura mais plural, inclusive religiosa;
  9. Valoriza a inclusão das diferenças – todas;
  10. Tem um olhar para a catequese e missão;

 

A partir e além dessas linhas gerais, o Diretório nos traz dez direcionamentos bem específicos:

 

DEZ DIRECIONAMENTOS

 

  1. ELE FAZ UMA LEITURA EM PROFUNDIDADE SOBRE O NOSSO TEMPO;

Valoriza nossos dons como catequistas e entende que a catequese é central. Muitos catequistas não sabem da sua própria dignidade e vivenciam sua missão magnífica esquecidos da comunidade e sem conhecer a importância que possuem (CAP 3).

Constata lacunas existentes em nossas práticas pastorais, e em como as comunidades são chamadas a assumirem uma postura diferente diante da catequese.

Coloca diante de nossos olhos os desafios do tempo presente, lembrando que conhecer a realidade atual é essencial para evangelizar, pois não anunciamos um conto de fadas, mas um Reino de Deus que se inicia na História.

Convoca uma nova consciência eclesial sobre a catequese, em que ela seja colocada no centro dos esforços e das capacidades de cada comunidade.

 

  1. PERGUNTA QUAL É O SENHOR JESUS CRISTO QUE ESTAMOS ANUNCIANDO? (CAP. 1)

O Diretório se inicia com uma apresentação da Revelação e de quem É o Cristo.

Qual o motivo? Na verdade, dois motivos, um desconhecimento e uma confusão.

Para muitas pessoas Jesus foi apresentado como uma ideia distante da vida, e talvez nunca tenha ficado claro quem é Jesus. Há vários grupos religiosos para os quais Jesus é um ajudante de cena em espetáculos de exorcismos.

Há outros grupos que pregam que Jesus é uma espécie de fiador ou de banqueiro que tem a obrigação de contribuir enchendo a pessoa de dinheiro.

Há aqueles que ensinam que Jesus é um gênio da lâmpada que só existe para, escutem bem, “honrar a minha fé”, isto é, me dar tudo o que eu quiser.

Muitos de nossos catequistas, muitos dos nossos cristãos, tiveram uma “catequese” baseada em pensamentos que nada tem a ver com o que Jesus ensinou. Quando falamos dessas situações, há pessoas que não gostam, ficam tristes, mas suas fontes de conhecimento não eram de acordo com o Evangelho.  Infelizmente há muito disso. É o que podemos chamar de confusão..

 

 

  1. REEVANGELIZAR OS PRÓPRIOS BATIZADOS

Há uma desvinculação entre experiência de fé e experiência eclesial. Muitos acreditam que não se precisa mais da Igreja para vivenciar a fé.

Antes de evangelizar o mundo atual, é preciso reevangelizar nossas próprias estruturas (que o n. 41 chama de pastoral ordinária, ou seja, comum);

Na sequência evangelizar os batizados. Mas aqui um problema: nossa catequese muitas vezes fala “para dentro”, utiliza uma linguagem que nem sempre é capaz de alcançar os que estão conosco.

E por fim, criar estratégias, serviços e linguagens catequéticas que sejam atraentes, tenham profundidade e deem sentido à vida.

Mas para isso, e preciso reevangelizar a própria Catequese.

 

  1. REEVANGELIZAR NOSSAS PRÓPRIAS COMUNIDADES

Catequistas são muito cobradas porque sabemos da importância deste ministério. Mas quase nunca as comunidades recebem algum tipo de cobrança.

É o que podemos chamar de esquecimento pastoral da catequese. Muitas coisas são importantes e fundamentais nas comunidades, mas nem sempre a catequese é uma delas.

Para mim é muito claro que nossas comunidades passam por situações financeiras incertas, inclusive agora. Mas o esquecimento não vem de agora, é uma cultura.

É muito perigoso esperar que algo bom ocorra para a catequese somente quando chega na Paróquia um gestor que goste da catequese. Isso é algo muito sério.

Precisamos de profissionalismo nesta questão.

É preciso confiança no Espírito Santo.

A Igreja, mistério de comunhão, é animada pelo Espírito.

O processo de evangelização, e nele a catequese, é uma ação espiritual.

Todos os fiéis são sujeitos ativos.

 

  1. FONTES DA CATEQUESE (CAP. 2)

Valorizar a Sagrada Tradição, o Sagrado magistério e a Sagrada Escritura.

A liturgia,

O testemunho dos mártires e santos;

A Teologia e a cultura cristã.

 

  1. FORMAÇÃO DAS CATEQUISTAS (CAP. 4) E OS ORGANISMOS A SERVIÇO DA CATEQUESE (CAP. 12)

Conectar essas realidades;

Criar ou reforçar essa cultura eclesial;

 

  1. O CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

O Catecismo da Igreja Católica dispensa maiores apresentações. Ele é um portal seguro para o conhecimento e o mergulho nos fundamentos da fé católica. Todos os anos ofereço um curso de Catecismo, quero que todos fiquem atentos a essa possibilidade nas minhas redes sociais. Este curso costuma fazer uma grande transformação ao ministério catequético. O Diretório fala do Catecismo como um dos mais importantes meios para embasar e ampliar nossa compreensão sobre a nossa fé.

 

  1. A METODOLOGIA

Relação conteúdo-método

Experiência humana

Memória

Linguagem

Grupo

Espaço

 

  1. OS CENÁRIOS CULTURAIS CONTEMPORÂNEOS

Engana-se a(o) catequista que pensa que a realidade atual, assim como os catequizandos, são de simples e imediata compreensão. Ao contrário, tanto a sociedade quanto as pessoas são marcadas por múltiplas pertenças, crises, identidades, necessidades etc. O Diretório elenca alguns cenários que marcam nossa época: pluralismo e complexidade, contextos urbano e rural, culturas locais tradicionais, piedade popular, contexto ecumênico e multi religioso, cultura digital, transformações religiosas etc.

 

  1. A INCULTURAÇÃO DA FÉ

O Evangelho em si, com seus valores e princípios, é inegociável, por mais que as ideologias tentem se apropriar do que Jesus disse ou praticou. O Evangelho, que possui as Palavras e ações do Cristo, permanece sempre o mesmo, com seus valores do bom, do belo e do verdadeiro, que se expressam na busca por Deus e no encontro com as criaturas irmãs, sobretudo a humanidade sofredora.

A fé, por outro lado, pode e deve se inculturar, isto é, vestir-se de acordo com as culturas, tempos, sociedades. A fé faz este movimento de forma semelhante às inspirações que o Espírito Santo colocou em todos os tempos quando espalhou as sementes do Verbo.

 

CONCLUSÕES

O Diretório traz para nós a possibilidade de ajustar nossa missão. Se ele não tiver o poder de fazer isso, pode ser que ou a gente não o entendeu ou nós já somos catequistas perfeitos. Ser catequista é oferecer um testemunho de presença, estudo e manifestação. O Diretório não é uma lei dura, mas é um guia, um mapa, uma orientação segura.

Suas observações são

Lúcidas;

Realistas;

Urgentes;

Não conclusivas.

 

Valorizemos suas profundas análises.

Fonte:

Portal Altierez

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