
Tive uma tia freira que gostava muito de dirigir, mas que me dava medo, porque ela pensava que era pilota de corrida. Andar de carro com ela era como estar em uma montanha-russa sobre pneus. Um dia perguntei a ela porque corria tanto daquele jeito. Ela acelerou mais ainda e contou duas histórias das quais nunca me esqueci.
A primeira delas, foi quando, em plena década de 1960, ainda com poucos automóveis rodando pelas estradas, que eram todas de terra, era muito raro ver uma mulher dirigindo. Contudo, o convento em que ela residia, ganhou de um fazendeiro próspero, um presente inusitado: um automóvel. Ao entregar o presente para as religiosas, o fazendeiro fez questão de dizer que, como elas eram enfermeiras, médicas e professoras, prestavam em seus apostolados um serviço generoso às pessoas daquela região (sul de Minas) e por isso precisavam de uma ferramenta para irem mais longe.
Se eu me admiro até hoje com a generosidade e inteligência daquele bom senhor, me admiro muito mais com a “contenda” que se instalou no convento. Minha tia me contou rindo que formaram-se vários partidos. Havia as irmãs que se empolgaram com aquela potente máquina – verdadeira “maravilha tecnológica” – que além de tudo era “simpática”: tratava-se de um “fusca” ano 1961. Havia as irmãs que pensavam que uma freira guiando um automóvel seria motivo de escândalo e que, por isso, deveriam passar o carro para o Bispo. As irmãs que cuidavam dos cavalos e carroças sentiram-se ameaçadas, pois o carro poderia competir com as montarias. Foi uma confusão. Mas o fusca foi aceito depois de uma votação. Com ele as irmãs daquele convento fizeram ainda mais bem às pessoas, pois fizesse chuva ou fizesse sol, lá estava o novo “cavalo de aço” rompendo lamaçais e cortando a poeira das estradas de terra. Deram até um nome ao fusca: “Cardeal”!
A outra história, que se passou anos depois, é a de um padre que depois virou bispo e ficou famoso, mas que quando era um padre de aldeia, tinha muitas dificuldades para alcançar todas as suas comunidades, até que a paróquia, depois de realizar inúmeras quermesses e festejos, finalmente adquiriu um automóvel. Qual automóvel? Sim, um fusca. Um belo dia, enquanto visitava os enfermos das fazendas, o fusca do padre simplesmente parou e não funcionava mais. E uma chuva muito forte estava para cair. Depois de tentar de tudo, o padre já estava desistindo, quando passou um caminhão e o motorista parou. “Boa tarde, seu padre, a sua bênção”, o homem disse. “Boa tarde só se for para você, meu filho”, resmungou o padre mal humorado. Percebendo a situação, o caminhoneiro olhou o motor do fusca, mexeu em algumas coisas e buscou um arame no caminhão. Deitado embaixo do motor, ele consertou o que estava quebrado com o arame e disse ao padre: “Pode dar a partida, reverendo”. Quando deu a partida, o padre ficou tão feliz que saiu correndo e se esqueceu de agradecer.
Muitos e muitos anos depois, com milhares de quilômetros rodados, inventaram de trocar o carro do padre, que já estava muito desgastado. Quando o mecânico da concessionária foi avaliar as condições do motor, ficou impressionado com uma “engenharia original de fábrica” que havia no câmbio do fusca e que ele nunca tinha visto. “Coisa da União Soviética”, ele dizia. Era algo espantoso! Intrigado, o padre quis olhar o que seria tão diferente assim num simples fusca. E então, deitado embaixo do carro, viu os arames e a forma artística e precisa com que aquele senhor tinha salvo sua viagem muitos anos antes.
Ainda hoje tento entender porque minha tia me contou essas duas histórias quando eu tinha perguntado o motivo de correr tanto. Não tenho muita certeza, mas acho que ela corria muito depois de ter passado longos anos dirigindo só aquele fusca. Não sei, talvez seja isso.
Mas o que esses dois relatos podem ensinar é que saber o valor de ter um método para lidarmos com as mais diferentes situações da vida. Quem tem método não se embaraça. Resolve. Dá soluções e pode fazer a grande diferença em nossas vidas. E na vida dos outros. Seja salvando crianças no parto, como aquelas freiras que aceitaram dirigir, seja como aquele motorista de caminhão que salvou a tarde de um padre. Colocar nossas habilidades em métodos faz um bem enorme a nós e aos outros muito mais.
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